Quem Somos

Por Israel do Vale

Os ventos mudaram. E em tempos (saudáveis!) de contaminações, a temporada de rótulos desce a ladeira desenfreadamente.

A nova música brasileira é um sintoma de um momento de reinvenção permanente – e já não é de hoje. Mesmo quando reverente. Com uma pitada de DNA, outra de curiosidade, maneja fórmulas consagradas sem se ater a receitas rígidas. Livre, leve e solta, abre novas picadas e segue suave, pé ante pé, forçando limites, retrocedendo se preciso, pelos descaminhos da despretensão.

O quinteto mineiro Odilara espia de um ponto de vista privilegiado estes novos e belos horizontes em seu segundo disco, “Janela Pro Mundo”. Depois de sete intensos anos de shows pela noite de BH e um périplo admirável pelas Minas em Gerais, o grupo convida os fãs a se equilibrarem na ponta dos pés, esticarem o pescoço e explorarem outros possíveis.

Pós-graduado nas peripécias do palco, pela vivência acumulada em bares, festas, festivais e casas de show na capital e em pelo menos 20 cidades do interior, o Odilara sobe mais um degrau importante na escadaria da vida artística.

Andréa Furtini (voz e gaita), Eurípedes Neto (violão e voz), Gustavo Scarpa (baixo e voz), Marcelo Bontempo (guitarra) e Paulo Espinha (bateria) levaram três anos para trazer à luz o novo rebento, após uma estréia em disco que exibe o nome da banda no título, de 2010. Porque é preciso saber respeitar o tempo das coisas, afinal.

Sob a batuta de um cúmplice de primeira hora, o festejado violonista e produtor Rogério Delayon, a produção do CD ressalta novamente os atributos vocais (a beleza, a simpatia, o algo mais e a alegria) de miss Furtini, intérprete de uma suavidade e uma tenacidade que desafiam qualquer marcação de tempo, divisão de sílabas, métrica ou o que for.

Ao evitar enveredar outra vez por temas conhecidos e optar por escancarar as janelas da alma para seu público, o Odilara dá um passo firme e largo no processo de amadurecimento de uma carreira desapressada, que ganha consistência a cada dia.

Fruto de um carisma raro e da sinceridade estampada no rosto de cada um de seus membros, que se expressa na capacidade de cercar-se de gente fina, elegante e sincera, como atestam as participações especialíssimas nos dois discos.

Com um CD de estréia que visitou o sacolejo de Jorge Ben, a delicadeza de Tom Jobim, a sutileza de Dorival Caymmi, regravada mais tarde, efusivamente, pelos Novos Baianos, a poesia de Vinicius de Morais e Baden Powell, a genialidade de Chico Buarque não seria de se espantar se houvesse qualquer inibição diante dos arroubos de composição.

Mas quem trilhou os primeiros compassos na música num projeto que celebrava justamente a obra de Chico (no projeto “Sambas de Holanda”, ainda em 2006) não se intimidaria assim tão fácil.

“Janela Pro Mundo” é a segunda margem de um rio que desliza suave, embalado pela correnteza das afetividades. Forjado na matéria bruta da simplicidade, os pés fincados no chão, ecoa tradições caras a uma suposta linha evolutiva da música popular brasileira, no porto inseguro em que um dia ancorou uma nau chamada samba.

Mas o além-mar é cheio de surpresas. E a abertura para o que vem de fora é, desde sempre, uma tatuagem no caráter do brasileiro. Que se traduz, no disco, nas camadas abluesadas dos arranjos de gaita ou no vasto cardápio de guitarrices sapecas – capazes de insinuar riffs improváveis de certa surf music jovem-guardista, criar climinhas dissonantes dignos do britpop e enlaçar isso tudo a peraltices que, aqui e acolá, ressoam sandices instigantes e indomáveis de um Fernando Catatau ou matreirices de um Trio Mocotó.

Para além da dúvida ou da dívida, a dádiva da vida. Vívida. Vivida.

Veja também

Comentários